Regresso às Aulas e Infeções Infantis: Como Reduzir o Risco e Saber Quando Procurar Ajuda
Introdução
O regresso à escola e à creche significa reencontros, novas rotinas e muitas horas de aprendizagem e brincadeira. Significa também mais tempo em contacto próximo com outras crianças, criando mais oportunidades para a transmissão de vírus e outros microrganismos.
Além disso, o início do ano letivo aproxima-se do outono e do inverno, períodos em que várias infeções respiratórias se tornam mais frequentes. Constipações, gripe, gastroenterites e infeções pelo vírus sincicial respiratório (VSR) são alguns dos problemas que podem surgir nesta altura do ano.
Não é possível impedir todas as infeções, nem esse deve ser o objetivo. Mas algumas medidas simples podem ajudar a reduzir a transmissão.
É igualmente importante que pais e cuidadores saibam reconhecer quando uma criança pode ser acompanhada em casa e quando deve ser avaliada por um profissional de saúde.
Por Paulo Pacheco (Farmacêutico)
Editado a 2026-09-08
Regresso às Aulas e Infeções Infantis: Como Reduzir o Risco e Saber Quando Procurar Ajuda
Introdução
O regresso à escola e à creche significa reencontros, novas rotinas e muitas horas de aprendizagem e brincadeira. Significa também mais tempo em contacto próximo com outras crianças, criando mais oportunidades para a transmissão de vírus e outros microrganismos.
Além disso, o início do ano letivo aproxima-se do outono e do inverno, períodos em que várias infeções respiratórias se tornam mais frequentes. Constipações, gripe, gastroenterites e infeções pelo vírus sincicial respiratório (VSR) são alguns dos problemas que podem surgir nesta altura do ano.
Não é possível impedir todas as infeções, nem esse deve ser o objetivo. Mas algumas medidas simples podem ajudar a reduzir a transmissão.
É igualmente importante que pais e cuidadores saibam reconhecer quando uma criança pode ser acompanhada em casa e quando deve ser avaliada por um profissional de saúde.
Por Paulo Pacheco (Farmacêutico)
Editado a 2026-09-08
Porque é que as infeções se transmitem tão facilmente nas escolas e creches?
Nas escolas e creches, muitas crianças permanecem durante várias horas em espaços comuns, brincam em proximidade e utilizam os mesmos objetos e superfícies.
Nas crianças mais pequenas, os hábitos de higiene das mãos e de etiqueta respiratória ainda estão também em desenvolvimento.
Os mecanismos de transmissão não são iguais para todos os agentes infeciosos.
Os vírus respiratórios podem disseminar-se através de secreções e partículas respiratórias libertadas ao respirar, falar, tossir ou espirrar, bem como através do contacto com mãos, objetos ou superfícies contaminados.
Já algumas infeções gastrointestinais podem transmitir-se através da via fecal-oral, do contacto entre pessoas ou de alimentos, água e superfícies contaminados.
Por isso, medidas simples como lavar corretamente as mãos, adotar etiqueta respiratória e manter os espaços ventilados continuam a ser importantes.
Constipação ou gripe: não são a mesma coisa
É frequente utilizar os dois termos como se fossem equivalentes, mas constipação e gripe são infeções diferentes.
Na constipação, os sintomas afetam sobretudo as vias respiratórias superiores e podem incluir:
- nariz entupido ou com corrimento;
- espirros;
- irritação ou dor de garganta;
- tosse;
- mal-estar ligeiro.
Os sintomas tendem a surgir de forma gradual.
A gripe, provocada pelos vírus influenza, apresenta habitualmente um início mais súbito e pode causar febre, mal-estar mais marcado, dores musculares, dor de cabeça e tosse.
Nas crianças, também podem surgir manifestações gastrointestinais, como vómitos ou diarreia.
Embora ambas sejam geralmente autolimitadas, a gripe pode provocar doença mais significativa e complicações, sobretudo nas pessoas mais vulneráveis.
Vírus sincicial respiratório: porque merece particular atenção nos bebés?
O vírus sincicial respiratório, ou VSR, é uma causa muito comum de infeção respiratória em idade pediátrica.
Em muitas crianças provoca apenas sintomas semelhantes aos de uma constipação, mas pode também causar bronquiolite ou pneumonia.
O risco de doença grave é maior durante os primeiros meses de vida, nos bebés prematuros e em crianças com determinadas condições clínicas.
Em Portugal, a circulação do VSR é predominantemente sazonal e ocorre geralmente entre outubro e março.
Imunização contra o VSR em 2026/2027
Na época de 2026/2027 existe uma informação particularmente relevante para as famílias com bebés.
A Direção-Geral da Saúde publicou, em setembro de 2026, a campanha de imunização sazonal contra o VSR em idade pediátrica para o outono e inverno de 2026/2027.
A imunização pediátrica é realizada através do nirsevimab, um anticorpo monoclonal de ação prolongada.
Ao contrário de uma vacina, este anticorpo fornece diretamente anticorpos contra o VSR, conferindo imunidade passiva durante vários meses.
Na campanha 2026/2027 estão abrangidas todas as crianças nascidas entre 1 de abril de 2026 e 31 de março de 2027, bem como determinados bebés prematuros e crianças com condições que aumentam o risco de doença grave por VSR, de acordo com os critérios definidos pela DGS.
Existe também vacinação contra o VSR durante a gravidez. Quando a vacinação materna ocorreu com antecedência suficiente antes do nascimento, na maioria das situações não é necessária a administração do anticorpo ao recém-nascido, embora existam exceções clínicas específicas.
A estratégia de proteção mais adequada deve ser definida pelos profissionais de saúde de acordo com cada situação.
Gastroenterites: vómitos e diarreia também são frequentes
As gastroenterites são outro problema frequente na infância e podem ser provocadas por vírus, bactérias ou parasitas.
Os sintomas podem incluir:
- diarreia;
- vómitos;
- náuseas;
- dor ou cólicas abdominais;
- febre;
- diminuição do apetite.
Na maioria dos casos, uma gastroenterite aguda tem evolução favorável.
No entanto, nas crianças, uma das principais preocupações é a desidratação.
Quem apresenta maior risco de desidratação?
Os lactentes merecem particular atenção.
O risco de desidratação é maior nas crianças com menos de 1 ano, sobretudo nas que têm menos de 6 meses.
Também pode aumentar quando existem vómitos ou dejeções muito frequentes, dificuldade em ingerir líquidos ou baixo peso ao nascer.
É importante estar atento a sinais como:
- boca ou língua secas;
- olhos encovados;
- ausência de lágrimas ao chorar;
- diminuição importante da quantidade de urina;
- irritabilidade ou sonolência anormal;
- recusa persistente de líquidos;
- agravamento do estado geral.
Como prevenir ou corrigir a desidratação?
Uma criança com vómitos ou diarreia deve continuar a receber líquidos.
Quando existe desidratação ou risco aumentado de a desenvolver, podem ser utilizadas soluções de reidratação oral, que contêm água e eletrólitos em proporções adequadas.
Se a criança vomitar, estas soluções podem ser mais bem toleradas quando administradas frequentemente e em pequenas quantidades.
O aleitamento materno deve ser mantido.
Refrigerantes, bebidas muito açucaradas e sumos de fruta não substituem uma solução de reidratação oral e podem, em algumas situações, agravar a diarreia.
E os medicamentos antidiarreicos?
Os medicamentos antidiarreicos não devem ser utilizados por iniciativa própria numa criança com gastroenterite.
Nas crianças mais pequenas, estes medicamentos são geralmente desaconselhados.
Os antibióticos também não fazem parte do tratamento de rotina de uma gastroenterite, ficando reservados para situações clínicas específicas.
A prioridade deve ser evitar ou corrigir a desidratação e vigiar o estado geral da criança.
E o rotavírus?
O rotavírus pode provocar gastroenterite, particularmente nos bebés e crianças pequenas.
Neste ponto é importante não transpor diretamente para Portugal recomendações de outros países, porque os programas de vacinação não são iguais.
Em Portugal, no âmbito do Programa Nacional de Vacinação, a vacinação contra a gastroenterite por rotavírus está prevista para crianças pertencentes a determinados grupos de risco definidos pela Direção-Geral da Saúde.
Como estas vacinas têm limites de idade para iniciar e completar o esquema de vacinação, as dúvidas devem ser esclarecidas precocemente com os profissionais de saúde.
Lavar as mãos continua a ser uma das medidas mais importantes
Pode parecer uma medida demasiado simples, mas continua a ser fundamental.
As crianças devem aprender a lavar corretamente as mãos:
- depois de utilizar a casa de banho;
- depois de assoar o nariz, tossir ou espirrar;
- antes de comer;
- antes de manusear alimentos;
- quando as mãos estão visivelmente sujas;
- depois de chegar a casa, sobretudo antes das refeições.
A lavagem deve ser feita corretamente com água e sabão.
Quando não existe acesso a água e sabão, uma solução antisséptica de base alcoólica pode ser útil em muitas situações, desde que seja adequada à idade e utilizada corretamente.
Nas gastroenterites, a lavagem das mãos assume particular importância porque alguns agentes infeciosos podem transmitir-se facilmente pela via fecal-oral.
Ensinar a tossir e espirrar corretamente
A chamada etiqueta respiratória também deve ser ensinada desde cedo.
Ao tossir ou espirrar, a criança deve cobrir o nariz e a boca com um lenço de papel ou com a dobra do braço, evitando fazê-lo diretamente para as mãos.
O lenço deve depois ser colocado no lixo e as mãos devem ser lavadas ou desinfetadas.
São comportamentos simples que podem ajudar a reduzir a disseminação de infeções respiratórias.
Ventilar as salas realmente ajuda?
Sim.
A ventilação permite renovar o ar dos espaços interiores e reduzir a concentração de partículas respiratórias potencialmente infeciosas.
Sempre que possível e em condições de segurança, abrir portas ou janelas regularmente ajuda a renovar o ar das salas de aula e de outros espaços interiores.
A ventilação não substitui outras medidas de prevenção, mas funciona como mais uma camada de proteção.
É necessário desinfetar tudo?
Não é necessário transformar a casa num ambiente estéril.
A limpeza habitual é suficiente na maioria das situações.
Quando alguém está doente, pode ser útil reforçar a limpeza das superfícies tocadas frequentemente, como:
- puxadores;
- torneiras;
- interruptores;
- mesas;
- brinquedos;
- instalações sanitárias.
Mais importante do que desinfetar obsessivamente todos os objetos é combinar higiene das mãos, limpeza adequada, ventilação e comportamentos responsáveis quando alguém está doente.
Uma criança constipada deve faltar à escola?
Nem sempre.
Uma criança com sintomas respiratórios ligeiros, como corrimento nasal, dor de garganta ou tosse ligeira, sem febre e com bom estado geral, pode não necessitar de faltar à escola.
A situação é diferente quando a criança está efetivamente doente.
Deve permanecer em casa quando apresenta febre e quando o estado geral não lhe permite participar normalmente nas atividades.
Também é prudente manter a criança em casa quando apresenta:
- vómitos ou diarreia ativos;
- mal-estar importante;
- prostração;
- dificuldade respiratória;
- incapacidade para comer ou beber adequadamente;
- sintomas que a impedem de participar normalmente nas atividades.
Depois de uma doença, o regresso deve acontecer quando a criança já se encontra suficientemente bem para retomar as atividades habituais.
Devem ainda ser respeitadas as orientações dos profissionais de saúde, das autoridades de saúde e as regras do estabelecimento frequentado.
Vacinação: vale a pena verificar se está tudo atualizado
O início do ano letivo é uma boa oportunidade para confirmar se o Programa Nacional de Vacinação está atualizado.
A vacinação permite prevenir várias doenças potencialmente graves e contribui também para a proteção de toda a comunidade.
No caso das vacinas sazonais, nomeadamente contra a gripe, devem ser seguidas as recomendações atualizadas da Direção-Geral da Saúde para cada época.
As recomendações podem mudar de ano para ano, pelo que é importante consultar informação atualizada.
É possível “reforçar as defesas” antes do regresso às aulas?
É uma das perguntas mais frequentes nesta altura do ano.
Não existe um suplemento capaz de garantir que uma criança não contrai os vírus que circulam na escola ou na creche.
O normal funcionamento do sistema imunitário depende de vários fatores, entre os quais:
- alimentação variada e equilibrada;
- sono adequado;
- atividade física;
- hidratação;
- vacinação recomendada;
- ausência de exposição ao fumo do tabaco.
Vitaminas e outros suplementos podem ser necessários em determinadas situações, nomeadamente quando existe um défice nutricional ou outra indicação específica.
No entanto, não devem ser apresentados como uma forma garantida de prevenir constipações, gripe ou outras infeções.
Mais importante do que procurar um produto para “aumentar as defesas” é assegurar hábitos de vida saudáveis e identificar necessidades específicas quando estas existem.
Antibióticos não tratam infeções virais
Grande parte das infeções respiratórias da infância é provocada por vírus.
Os antibióticos atuam contra bactérias e não aceleram a recuperação das infeções virais.
A sua utilização desnecessária pode provocar efeitos adversos e contribuir para o desenvolvimento de resistência aos antibióticos.
Por isso:
- não devem ser utilizados antibióticos que sobraram de tratamentos anteriores;
- não devem ser administrados medicamentos prescritos a outra pessoa;
- a necessidade de um antibiótico deve resultar de uma avaliação adequada.
O que pode ser útil ter em casa?
Não é necessário criar uma grande “farmácia de emergência”.
Alguns produtos básicos podem, no entanto, ser úteis durante a época de maior circulação de infeções:
- termómetro;
- solução salina para higiene nasal;
- solução de reidratação oral;
- lenços de papel;
- medicamentos para febre ou dor adequados à criança e utilizados de acordo com as recomendações de um profissional de saúde.
Medicamentos para a tosse, constipação, vómitos ou diarreia não são adequados a todas as idades e não devem ser utilizados indiscriminadamente.
Quando procurar ajuda médica?
Na maioria das vezes, as infeções infantis são ligeiras e resolvem-se espontaneamente.
No entanto, é importante observar o estado geral da criança e reconhecer sinais que justificam avaliação.
Deve procurar orientação médica perante situações como:
- dificuldade em respirar;
- respiração muito rápida ou esforço respiratório;
- coloração azulada ou acinzentada dos lábios ou da pele;
- prostração marcada;
- sonolência anormal ou dificuldade em acordar;
- alteração importante do comportamento;
- convulsões;
- incapacidade ou recusa persistente de beber líquidos;
- redução marcada da quantidade de urina;
- vómitos persistentes;
- sangue no vómito ou nas fezes;
- dor abdominal intensa ou persistente;
- sinais de desidratação;
- agravamento progressivo do estado geral.
Nas crianças com menos de 3 meses, a presença de febre deve motivar avaliação por um profissional de saúde.
Para situações não emergentes, pode contactar o SNS 24 através do 808 24 24 24.
Perante uma situação potencialmente grave ou com risco de vida, deve ser contactado o 112.
O que pode fazer a farmácia?
A farmácia pode ter um papel importante na orientação de situações ligeiras e na identificação de sinais que justificam avaliação médica.
O farmacêutico pode ajudar a:
- esclarecer dúvidas sobre febre e outros sintomas;
- explicar como realizar corretamente a higiene nasal;
- orientar sobre hidratação e utilização de soluções de reidratação oral;
- aconselhar sobre a utilização segura de medicamentos adequados à criança;
- esclarecer dúvidas sobre vitaminas e suplementos;
- alertar para medicamentos que não são adequados à idade;
- esclarecer questões relacionadas com vacinação e imunização;
- identificar situações que devem ser encaminhadas para avaliação médica.
O objetivo não é medicar todas as infeções.
Em muitas situações, repouso, hidratação, alimentação adequada, higiene nasal e vigilância da evolução são as medidas mais importantes.
Conclusão
O regresso às aulas aumenta o contacto entre crianças e aproxima-se de uma época em que várias infeções respiratórias se tornam mais frequentes.
Não é possível evitar todos os vírus que circulam numa escola ou creche. É possível, no entanto, reduzir as oportunidades de transmissão e diminuir o risco de complicações.
Lavar corretamente as mãos, ensinar etiqueta respiratória, manter os espaços ventilados, ter a vacinação e imunização atualizadas e permitir que a criança recupere em casa quando está efetivamente doente são medidas simples e importantes.
Também é essencial evitar dois extremos: procurar medicamentos ou suplementos para todas as infeções ou, pelo contrário, desvalorizar sintomas que justificam avaliação médica.
Com informação adequada e atenção ao estado geral da criança, o regresso às aulas pode ser vivido com maior segurança e tranquilidade.
Fontes
Este artigo baseia-se em recomendações e informação da Direção-Geral da Saúde (DGS), SNS 24, Programa Nacional de Vacinação, Livro Azul de Vacinas, National Institute for Health and Care Excellence (NICE), European Centre for Disease Prevention and Control (ECDC) e outras entidades de saúde pública e literatura científica relevante sobre infeções respiratórias, gastroenterite em idade pediátrica, desidratação, rotavírus, vacinação e imunização contra o vírus sincicial respiratório.